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22 de nov. de 2010

Esperança


"Às vezes eu acho que sou otimista demais...
Mas a vida é feita de esperança, sabe?
A graça de ensaiar um espetáculo que nunca vai ao palco, é ganhar dos dias a experiência que só a vivência pode proporcionar.
Tardes perfeitas sempre andam acompanhadas de pedidos ao pé do ouvido...
Viver, enfim, é uma expressão de sentimentos."


Matheus de Castro

31 de out. de 2010

Querendo me apaixonar

Estou querendo me apaixonar...
Sofro de carência daqueles amores sinceros, daqueles amores perdidos em meio ao tempo que não passa quando o abraço é aconchego
Tô com necessidade de presença;
Presença quente, presença ardente.
Tô com vontade de tardes sem fim;
de suor apaixonado, de beijos molhados e línguas curiosas.
Tô com vontade de começos felizes, de meios atônitos, de finais sem fim.
Preciso logo daquele aperto diferente, daquela essência gostosa dos apaixonados...
Deu vontade de gastar meu tempo com mensagens de amor
Deu vontade de sair por aí procurando a pessoa certa
Deu vontade de ver a vida de um jeito mais fácil.
E quando for assim, quero que as mãos se encontrem;
quero calafrios em noites frias
quero romantismo nas horas mais inapropriadas.
Mas quero também o lado ardente da paixão;
Quero amor nas esquinas
Quero amor proibido
Quero o carinho agressivo...
Quero o olho no olho e o resto em encaixe...
Estou querendo me apaixonar, e para isso, vou espalhar por aí meus cartazes...
"Procura-se um amor eterno
Que seja belo
Que seja intenso
Que seja simples...
Que seja meu... e só meu... enquanto durar"

Matheus

19 de jun. de 2010

Vazio


Insisto em sustentar esse vazio...
Aumento minhas doses à cada vez que o sol se vai... Preencho as lacunas com memórias das partidas.
Esqueço dos meus sonhos, extrapolo meus limites.
Me faço de sábio e perco a bússola do sentir e do pensar...
E mesmo assim permaneço no encalço deste vácuo insuportável.
Dele me despeço das paredes e das molduras já desbotadas por tristeza
Neste vazio guardo a presença da melancolia... Guardo o anseio por tudo que pode dar errado.
Esse vazio representa minha alma transfigurada em peso morto;
Essa ausência que conflita com meus modos de alegria, é reflexo dos dias em que as nuvens tropeçavam nas lembranças do lençol molhado pelas lágrimas...
E usando uma arte milenar, guardo segredos e decifro as passagens da sombra pela terra seca e sem vida...
Infinitamente romântico, dialogo com os mistérios da lua e suas fases;
Atravesso hemisférios, apago meridianos...
Vivo intensos vermelhos e decepo minhas próprias asas de cera!
Cavalgo nas costas do destino errante;
Deliro nas nascentes da água fria que brota dos seios mornos da mãe natureza.
E ainda carrego o vazio, mesmo assim...
O vazio aguarda o tempo do retorno do passado... Aguarda o negar das boas lembranças.
Esse vazio, traiçoeiro, se faz de amigo, levanta a mente rumo à sensação de paixão e depois me derruba. 
Esse branco sem fim é frio e ignorante...
Esse vazio, que de tantos nomes perdeu o sentido pra mim, também é chamado de verdade...
Esse vazio é aquilo que perdi pra felicidade;
Esse vazio é aquilo que conquistei com a saudade dos tempos que ainda estão por vir...
Esse vazio sou eu... Só que vazio
Esse eu sou vazio... Mas sou eu... Vazio

Matheus

9 de mai. de 2010

A história do começo feliz e do triste fim


Esta é a história de um amor que não aconteceu; A história de um amor abortado.
Esta é a história de um amor consumido, tragado, dilacerado.
Esta é a história de um amor que perdeu pra morte, que não teve sorte, que caiu do abismo.
Este relato, triste e pesado, conta a história do amor de Carlos e Eduarda: A história do começo feliz e do final triste.
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Sabia-se tudo sobre todos naquela pequena cidade do interior.
A vida era pacata e preguiçosa, e as horas, divertidas, arrastavam-se vagarosamente pelos raios de sol e clarões de luar. Nesta cidade haviam ruas calçadas de pedras, muros feitos de barro e senhoras nas janelas aos fins de tarde. Nesta cidade haviam poucas esquinas, poucas pessoas e apenas uma venda para atender à todos moradores.
Esta cidade trazia uma história, como toda cidade... Mas fazia histórias também, como era de se esperar.
Moravam ali duas pessoas, que dentre tantas outras, destacavam-se pelo seu amor proibido. Eram Carlos e Eduarda, primos primeiros, criados juntos e inconscientes de tal amor que crescia.
Nas colinas gramadas do interior de Minas Gerais, Eduarda e Carlos viam rolar os tempos difíceis de mudança do mundo. Perdiam ali suas tardes, consumidos por sentimento paralisante de paixão e desprezando todos os nós que a família poderia traçar se descobrissem sobre o amor tão puro que existia entre eles.
Nas colinas, Eduarda via suas intimidades exploradas, descobertas... Enquanto, da mesma forma, descobria novos prazeres nas curvas das pernas de Carlos, nas voltas de sua orelha, no calor do seu hálito. Juntos eram um só; e o tempo dava pausas para respirar. As nuvens pareciam parar no céu sempre tão claro, e as rosas, benditas rosas, gostavam muito de soltar seu perfume mais delicioso ao verem os amores dos primos refugiados do pudor vingativo daquela pequena cidade.
Quando tinham meios de fugir, corriam às colinas no meio das frias noites, e amavam brincar de escolher suas estrelas no céu, sonhando que cada uma pertencia a um deles, e que elas também viviam o amor dos proibidos.
Carlos fazia os planos; Eduarda vivia os sonhos. Era difícil controlar os impulsos do amor sem limites. Na presença de familiares, como fingir não sentir algo que já é como parte da alma? Eduarda preferia sempre se trancar em seu quarto quando Carlos estava em sua casa acompanhado de seus pais. Carlos, moleque crescido como era, preferia arriscar a sorte em beijos molhados nas quinas dos corredores da grande casa antiga onde vivia Eduarda. Era um amor de pique esconde o amor destes dois... Era fácil ver o brilho nos olhos, o cuidado nos atos, o incômodo da distância. Eles nasceram para ficarem juntos. Estava traçado.
Não importava a nenhum deles se dessem por falta de sua presença em alguma tarde; Com o tempo, cansaram-se de esconder aquilo que era cada vez mais bonito. Seria um escândalo, uma desonra para a família ver os dois juntos, mas se não fosse assim como seria? Como prever os passos que ainda não foram dados? E foi com pensamento fixo, que Carlos decidiu, apoiado por Eduarda, contar a seus pais toda a verdade. Tinham escolhas, e estavam decididos sobre elas: Se não desse certo, fugiriam dali, morariam em outro lugar, nem que este lugar fosse lugar algum, apenas para que pudessem ser felizes juntos.
Mas determinado e ignorante aos nossos sentimentos é o destino. Estava tudo pronto, planos definidos, coragem crescendo no peito de ambos e tardes ainda maravilhosas nas colinas daquela cidade. E foi assim, sem poder evitar, que em uma tarde anterior ao dia previsto para o abrir-jogo da história de Carlos e Eduarda, que seus pais, já desconfiados de algo estranho nas ausências mútuas, flagraram o amor dos dois nas gramas da colina onde ficavam as rosas. E ódio tomou conta; A fúria dos pais de Eduarda foi imensa! As rosas perderam seu perfume e a grama ficou sem vontade de ser verde. Eduarda perdeu sua alma e Carlos já não sentia bater o seu coração. Foram separados sem a escolha de estar ou não estar. Aquele amor que era tão lindo virou motivo de discórdia, ódio e rancor. A família separou-se e Carlos partiu da cidade de pedras nas ruas e senhoras às janelas. Eduarda, pobre coitada, via sua vida partir a cada entardecer, ficando cada vez menos falante, menos radiante... Até sua beleza, antes exuberante, partiu com Carlos. O novo destino que enxergava era negro... choroso... dramático.
Carlos, agora um rapaz apático, não trabalhava, não saía e mal comia... Era tristeza. E tal tristeza era voraz e crescente, uma dor lancinante no peito que antes criava com gosto o coração apaixonado, agora fraco de tanto gritar sem ser respondido.
As estrelas ainda eram seu ponto de encontro, e ficavam lá, paradas, estagnadas em sua melancolia, pouco brilhando, pois não tinham mais os jovens que antes lhes apontavam deitados em uma colina verde com cheiro de rosas.
E foi assim, em mais um dia de dor, que Carlos cansou-se da ausência de sua amada, decidindo pela fuga. Deixaria para trás pai e mãe, mas viveria para sempre ao lado de seu amor. Resgataria Eduarda de seus pais rancorosos, e a levaria para bem longe, onde poderiam viver em essência o amor que sempre sentiram. Traiçoeiro e calculista como sempre foi, o destino determinou que no mesmo dia Eduarda tomaria a mesma decisão. E assim, movidos pelo mesmo objetivo, partiram, cada um de seu lugar, ao encontro do outro.
Alguns poucos quilômetros separavam as cidades em que estavam, e uma pequena viagem de carro era o suficiente para o encontro de almas tão unidas. Mas um não sabia das intenções do outro, o desencontro seria certeiro... Se não fosse por um pequeno detalhe.
Era domingo, final de feriado prolongado, trânsito engarrafado na BR que separava as pequenas cidades. As curvas da estrada eram sempre lembradas pela sua malícia com os motoristas mais desatentos. Um acidente parecia estar atrapalhando o desenrolar da viagem. Nervosa, Eduarda não via a hora de sair daquela confusão e abraçar seu amor mais uma vez. Ela buzinava, tentava ultrapassagens perigosas, mas permanecia quase parada. Era desesperante! Seus pais dariam falta do carro e de sua presença a qualquer momento, e poderiam avisar os pais de Carlos para que estes o vigiassem mais do que o normal. Como o tempo passa devagar quando estamos com saudades dos beijos de um grande amor...
Finalmente Eduarda passaria pelo bloqueio na estrada e seguiria sua viagem, agora quase no fim, e reencontraria Carlos, com o qual ela sonhava pelo afagar das mãos grandes e palavras bonitas. Eis que a dor de toda esta distância, ainda não tinha sido o suficiente para o castigo de Eduarda. Lá estava o motivo do engarrafamento: O carro de seus tios, capotado na estrada. E lá estava ao chão um corpo coberto pelo pano branco do prenúncio da morte... Desesperada pelo temor de ver com os olhos aquilo que já via com o coração, Eduarda saiu descontrolada do carro que roubara dos pais e atravessou a estrada com o restante das forças que suas pernas tinham. Não houve homem capaz de segurar sua vontade de ver quem estava por baixo pano da morte... Desvencilhando-se todos, Eduarda caiu de joelhos ao lado do alguém que estava no carro. Tomada de coragem, talvez a última coragem que teria para o resto da vida, puxou o lençol de uma só vez... Desmaiou. Era Carlos.
E o sol se punha, pela última vez, para aquele casal.
...
...
...
Dali em diante, poucas cenas ficaram na mente de Eduarda... Lembrava de muitas pessoas a carregando para dentro da ambulância, lembrava de seus pais chorando o choro do arrependimento tardio, lembrava de seu quarto, de remédios para dormir e de um cobertor.
Eduarda acordou com um gosto ruim na boca. Era o amargo da partida, concluiu depois. Aos poucos a impressão de ter tido um grande pesadelo transformou-se em percepção da realidade cruel... Carlos estava morto. Saiu de seu quarto com a mesma roupa que estava desde o dia anterior. Seus pais, na sala, aguardavam o despertar da filha. Carlos ainda estava sendo velado, e sem trocar palavras com ninguém, Eduarda dirigiu-se à antiga capela onde quase toda a cidade reunia-se para a romaria do enterro de seu amado.
Era tão triste imaginar Carlos sem vida... Eduarda pensou várias vezes em não aparecer por lá, em não guardar para si a imagem de seu amor em um caixão... Mas ao mesmo tempo seu coração clamava por uma despedida, pedia pelo último beijo na face, pela última sensação do toque na pele que, agora gélida e sem cor, havia lhe dado tanto amor... O maior amor.
Entrou pela capela sem ver nem ouvir ninguém... Estavam todos lá, mas ela não queria enxergar. Tocou com as pontas dos dedos as flores que cobriam os pés de Carlos, subiu com o olhar e percebeu que os pais haviam lhe colocado suas roupas preferidas... Tocou as mãos de Carlos, e olhou seu rosto... Estava sereno, com expressão tranqüila. Apesar de ter deixado Eduarda com o coração em pedaços, Carlos morrera sentindo a felicidade do quase-reencontro com sua grande paixão. Isso bastou para que morresse satisfeito.
Eduarda abaixou-se, beijou a face de seu amado e desejou do fundo do seu coração que ele a beijasse de volta... Era impossível. De lágrimas aos olhos, Eduarda lembrou de cada momento vivido nas colinas, nas quinas dos corredores e nas intimidades um do outro; lembrou da força extrema daquele amor que antes movia seu coração em um sentido oposto à razão, transformando em flores e em paixão tudo aquilo que estava em sua volta...
Lembrou-se de uma noite, a primeira noite em que esteve junto a Carlos, e lembrou-se daquela canção que tocava no rádio da pequena cidade... Era tão triste, e ao mesmo tempo era tema daquele momento. Ainda fraca, Eduarda sussurrou ao ouvido do corpo que antes fora de Carlos:
- Te amarei para sempre
E levantando-se, cantou como um grito o trecho da canção que se repetia na consciência daquela mulher de coração ferido para sempre...:
- A emoção acabou, que coincidência é o amor, a nossa música nunca mais tocou.
E aquela música nunca mais tocou...
E os anos se passaram sem respeitar a dor de Eduarda.
Ainda hoje, na pequena cidade, conta-se de uma velha senhora solteira, de expressão muito triste, que debruçada em sua janela, observa em seu jardim as rosas mais belas... E todas as noites, dizem por aí, a senhora aponta uma estrela, que diz sempre brilhar um pouco mais para ela, como que lhe chamando para voar ao céu. Essa senhora anda por aí contando uma velha história de amor. Todos a chamam de louca. Eles não entendem que a partida de um grande amor nos deixa um pouco mortos também... Eduarda vive assim, mergulhada na saudade de Carlos desde décadas e décadas atrás... E sonha todos os dias com o dia em que dormirá para nunca mais acordar, e assim, enfim, há de tocar as mãos de seu amor novamente, e, desta vez, para a eternidade...
Certamente, de todas as dores, a pior delas é a dor da despedida.
.
.
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Matheus

6 de mar. de 2010

Ainda inquieto




Nada me tira essa idéia fixa de voar ao infinito.
Nada me tira essa vontade quente de sentir o ar.
Persigo os cosmos e viajo em estrelas que não sei em que constelação ficam.
Me digo de dia e de noite que tais estrelas sou eu!
Abro as portas e fecho os caminhos, persigo as verdades brincando de esconder.
Sou falante e falador de mim mesmo, me delato e me protejo, me transformo em camuflagem.
Eu sou filho de meus filhos, sou fruto dos meus ideais!
Sou o canto dos meus ídolos, e a luz do meu Deus.
Eu sou aquele que anda sobre as águas do infortúnio, pois tenho fé no messias do povo que conheço pelo nome de Igualdade Social.
Eu tenho em mente o sabor das frutas que provei e das bocas que toquei um dia.
Tenho em mim cada pedaço de corpo que um dia foi meu.
Tenho gravado na mente as cenas mais fortes...
São pessoas, palavras, casos e momentos.
Guardo como segredo as risadas mais gostosas que já ouvi.
Guardo com sete chaves as pessoas que são caras à mim...
Guardo, em mim, todos os segredos do meu mundo... E permaneço inquieto...
Pois nada me tira essa idéia de voar ao infinito.


Matheus

27 de dez. de 2009

Novo Ano



O que eu espero de um novo ano, é quase nada...
Se espero demais, me iludo e padeço em minha própria ilusão... E se espero de menos, me surpreendo comigo e não suporto o peso de um novo caminho a seguir.
Só não espero apenas vitórias, porque não quero precisar de fracassos gigantes para aprender.
Espero menos sorrisos, pra aprender um pouco mais com as lágrimas;
Espero dores mais fortes, para vibrar com mais alegria ao me curar;
Espero palavras mais duras, para brilhar mais os olhos na hora de pedir perdão.
Neste ano, espero horas mais curtas, pra não ter que contar o tempo para ver ninguém;
Espero brigas sem fim, para poder beijar mais suave quando a paz reinar;
Espero tons mais graves, para gritar mais agudo quando a saudade apertar...
Em 2010, quero brincar de recomeço sem esquecer o que já se passou.
Quero inventar nova história, pois sou eu criador de mim, dono e vassalo de minhas próprias vontades, rei absoluto de meu próprio destino.
Em 2010, quero sair pela noite fria sem blusa nem cobertor, esperando em cada esquina que as pessoas sejam mais humanas! (E espero que elas realmente sejam!)
Quero o sorriso dos mendigos, a vitória dos fracassados e o amor dos desiludidos!
Em 2010 quero PAZ!
Quero Deus no meu coração, e no seu coração também!
Quero luz em todos os cantos, e menos trevas assombrando nosso país.
Quero acordar sempre cedo para ver o milagre da vida nascer, e dormir sempre tarde, pra lembrar de tudo que eu ainda tenho que agradecer!
Em 2010 quero viver como vivi em todos os anos, completamente perdido nos caminhos da história, inventando memórias e trocando palavras...
Em 2010 quero minha vida como sempre foi: Repleta de mim e de todos, abarrotada de extremos e de pura emoção!
Enfim, em 2010 quero AMOR!
Pois o amor é a água da vida e sem ele nada cresce e nada se cria...
,
Matheus

17 de dez. de 2009

Esconde

De tanto tentar me esconder, me escondi atrás de você.
E aos poucos, sem perceber, você foi colando em mim, vidrando em mim, fazendo de mim, você.
E como se não bastasse, como se não fosse demais, você se fez necessário, mesmo quando estava presente e falante.
Você sempre foi excesso.
De tanto que doava de si, tive medo de perder a mim buscando a você...
E tive medo... tive medo ao ponto de querer me esconder.
E de tanto tentar me esconder, me escondi atrás de você.
E aos poucos, sem perceber, fui eu quem colei em você.


Matheus

3 de dez. de 2009

No canto


Jogo seus beijos no canto da sala
Pois era no canto da sala que você costumava me jogar
Naquele canto foi onde também deixei suas coisas.
Do resto da minha casa, nada ficou no lugar;
Mentiras jogadas para fora, versos riscados em papel.
De lixo fiz os segredos, os planos, a alegria...
Como trilha ouço suas palavras que ecoam ao fundo das fotografias.
São as fotografias que me trazem a maior tristeza
Foi ali que você estampou seus melhores sorrisos falsos
Foi com elas que você se tornou artista e eu me tornei um louco
E com a fúria que me corrói eu destruo o meu mundo na esperança de destruir seus pensamentos juntos com ele.
Seus lábios, seu corpo, seus poemas...
Tudo falso.
Você toma jeito para político!
Arrastaria multidões com seu fingimento...
E é por isso e por tudo que eu jogo suas coisas num canto
Deixo no canto porque no canto não me incomodam os caminhos, corredores, estantes...
Deixo no canto porque do canto eu não preciso tocar se não quiser
Mas posso olhar sempre que lembrar de você
.
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Matheus

23 de nov. de 2009

Dor


É a dor que quebra a casca do ovo e nos faz enxergar o mundo de fora.
Arriscaria dizer que é a dor que faz o progresso fluir.
Sem a dor seriamos como máscaras de teatro: Expressões prontas e sentidos nulos.
A dor nos acompanha desde sempre, amiga inseparável das lágrimas que choramos, dos palavrões que saem impulsivamente e das atitudes impensadas e extremistas.
A dor move multidões.
É preciso a dor.
É preciso sentir a dor do parto para que haja nova vida.
É preciso sentir a dor do equívoco para aprender um novo caminho.
É preciso sentir a dor do amor para descobrir que existem muitos outros caminhos... Que levam para o mesmo lugar.
Não há hora mais decisiva do que a hora da dor.
Seja para qual objetivo for;
O verdadeiro amigo estará presente na dor.
A verdadeira família estará ao seu lado...
O verdadeiro amor estará, também, sempre presente em quase todas as dores....
Sua ausência só será notada, e diga-se de passagem, extremamente notada, quando o motivo da dor for ele mesmo.
De qualquer forma, e ao lado de quem quer que seja, a dor impulsiona.
Portanto, não imagine que apenas você está no alto desse muro, sem saber pra onde pular.
Não imagine que isso é eterno e que o sofrimento que hoje te atormenta em pele, a ponto de te fazer miséria de quem sempre foi, durará para sempre.
Nada é para sempre.
Assim como o amor que se vai, a dor também vai.
Assim como o amado amigo que vai pr'além das nuvens, a dor também parte.
Apenas não tema a dor.
Perca o medo de sentir as feridas que o destino causa.
Embora saibamos que aqueles que sofrem, às vezes sofrem por demasia e agonizam o interior de suas consciências, sabemos também que aqueles que passam a vida com medo de sentir dor, passam a vida virando páginas em branco; E não vivem.
Sofra, mas viva.
A vida é a soma de muitas escolhas e sensações.
Seria desperdício demais viver menos por medo de se machucar...
Lágrimas de dor podem sempre desabrochar em sorrisos de sabedoria.
.
.
Matheus

19 de nov. de 2009

Embora


Embora eu sinta o contrário, e embora isso tudo, para mim, seja apenas confusão, tudo foi simples demais.
Rápido demais, breve demais, íntimo demais... e forte demais também.
Embora eu saiba que daqui pra frente tudo pode ser pior do que nunca foi, e que aos poucos esse frio talvez se transforme em homicídio do que sinto, eu me contento com o sabor do seu beijo, mas sem ser dono da sua boca...
E me contento em te querer sem saber se um dia vou ter você.
Para mim basta ter a presença, a essência... A alma.
Basta ter um pensamento seu por dia direcionado à mim pra que o sorriso se amplie e a alegria tome conta.
Pra mim basta ter você... sem te ter por inteiro.
Quiçá eu não tenha um quarto da sua metade, e mesmo assim saio por aí te encontrando e te achando, pensando que a cada vez que te lembro, um pedaço novo eu ganho de você.
É ilusão, mas que seja verdade um dia.
E que seja finito, visto que também pode ser eterno...
Que seja o oposto, sendo que é claro que também pode ser o igual.
E certamente, que seja bonito enquanto dure, pois bonito é o que eu sinto.
E bonita é nossa história
E bonito é você em minha mente...
Só em minha mente...
Eternamente, na mente.

Matheus

3 de nov. de 2009

Metade da minha metade (Adaptação do texto original de Oswaldo Montenegro)


Que o tempo que ruge e que fere
não me proíba de sentir cada segundo vagarosamente.

Que o partir e o chegar incessantes
não façam de mim um corpo gelado
Porque metade de mim é encontro
mas a outra metade é despedida.

Que a morte e a vida que se equilibram
não façam de mim mais uma de suas vítimas
Porque metade de mim é o ócio
mas a outra metade é vontade.

Que as idéias e os desejos que tenho
não façam de mim apenas sensação
Porque metade de mim é paixão
mas a outra metade é prece.

Que o peso da consciência em tardes de tédio
não faça de mim apenas passado
Porque metade de mim é remorso
mas a outra metade é esperança.

Que as lembranças e a angústia se afastem, fazendo com que assim, o cotidiano seja um pouco mais prazeroso.

Que os reflexos da alma que não morre
não façam de mim a mesma pessoa que já fui
Porque metade de mim é o que eu era
mas a outra metade é o que eu quero ser.

Que eu nunca precise ferir ninguém com palavras
para que assim eu durma sempre em paz.
E que cada um que cruzar meu caminho leve de mim apenas sorrisos
Porque metade de mim é inconstância
mas a outra metade é abrigo.

Que o amor se mostre constante e presente
Mesmo que eu sofra por ele
E que as pessoas me vejam como um louco romântico
Porque é com amor que eu rego minhas raízes.
Porque metade de mim é tronco velho
mas a outra metade é semente.

E que a minha felicidade seja eterna
Porque metade de mim é o que eu pareço ser
e a outra metade também.
.
.
Matheus

22 de out. de 2009

Conto: Menino-Cinza


Gênero: Drama


Faltava vontade de viver naquele garoto.
Por anos a fio ele não tentara acender sequer uma fogueira de vida em seu peito, e sem saber como, nem quando, desistia voluntariamente de uma gota de emoção a cada dia, abrindo mão de cada passo, cada abraço dado, cada raio de sol.
Não sabia bem o que era seu, e não tinha consciência de atos alheios. Era ele alheio a si e aos outros, de tão paralisado que foi se tornando.
Era uma estátua respirante.
Coadjuvava, conformadamente, em sua própria vida. Ia deixando as folhas do calendário cair, se permitindo gastar a vida apenas da maneira mais econômica que conhecia: Parado.
Não se via satisfeito, obviamente... Mas não tinha vontade de mudar, também. Habituou-se ao escuro, à poeira e ao mofo de seu quarto cinza, com poucos livros, poucas roupas e pouquíssimas lembranças.
No canto esquerdo da parede de sua porta, guardava um baú antigo, desses de chave dourada, onde colocava os maços de cigarro vazios e os papéis com palavras que, às vezes, muito às vezes, tentava escrever, sem sucesso de idéias.
Sua mãe nem percebia sua existência; E não era por falta de amor. Era por tristeza de ter parido de si um peso morto, que aquela mulher renegava sua cria.
Seu pai abandonara o lar antes de completar quinze anos de casado. Era para ele uma humilhação ter como filho aquele garoto inútil - como já havia dito ao menino milhares de vezes em suas brigas monólogas.
O menino vivia uma vida sem objeções. Também pudera! Qual objeção teria alguém que nada faz?
Nem os estudos o interessavam. Formara-se no ensino médio com notas na média, tinha média atenção às aulas, era avaliado como "médio" em seu desempenho em classe. O médio era a tradução do tédio na vida do menino cinza.
Tinha média saúde, por não querer se exercitar nem se tratar quando sentia algo. Tinha média imaginação, pois não conhecia nem metade das experiências que poderia ter vivido, e que o inspirariam em alguma forma a expressar seu interno.
Além do médio, o nulo também era amigo presente. Presença nula, alegria nula, palavras nulas e sempre monossilábicas: "Sim", "Não", "Tudo bem".
Era de gênio nulo também.
Amigos não tinha; Quem gostaria de ter como amigo uma folha de papel em branco?
Aos 17 anos não havia vivido sequer um amor, dado sequer um beijo em alguma garota que o interessasse. Ele nem olhava as garotas. Nem ao seu computador, também, dedicava atenção. Pelo menos se fosse assim, seria algo de diferente a constar em sua ficha nula-média.
O menino cinza não olhava relógio, não comia besteiras, não ficava nervoso, nem ao menos sorria.
O menino cinza, por gostar de banalizar a si mesmo, colocara em si próprio este codinome.
Era uma maneira de se entender melhor. E nisso, ironicamente, ele achava graça.
Ria de sua própria covardia.
Certa feita o menino cinza viu-se obrigado a visitar a avó, mãe de sua mãe, que estava internada apresentando uma gastrite nervosa de tanto ceder de si em cuidados ao marido, já idoso, que sofria o mal de Alzheimer.
Era o tipo de obrigação familiar que o menino cinza detestava mas tinha que cumprir.
No hospital, entrara no quarto da avó e apertara sua mão dizendo: "Melhoras", e partiu ao saguão para aguardar sua mãe que repartia-se em lágrimas e palavras de afeto com sua matriarca.
No saguão, o menino cinza se preocupou em observar a maneira como a água se movia dentro do galão que ficava sobre o filtro elétrico.
Em vez de observar as pessoas, preferia abstrair-se em um objeto inanimado, que como o convinha, não poderia responder-lhe expressões.
Acontece que, de maneira automática, algo chamou a atenção do menino cinza. Uma das portas que cercavam o filtro d'água pelos dois lados abriu-se, e dela uma pequena senhora, já de cabelos brancos apesar de não aparentar idade avançada, saiu de mãos dadas com um pequeno garotinho, que não deveria ter mais do que seis ou sete anos.
Esse garotinho apoiava-se com uma das mãos em sua mãe, e com a outra segurava-se em um pedestal móvel que continha um cilindro de oxigênio, e também soro ligado diretamente em sua veia.
Curioso, o menino cinza observou aquela cena atentamente, e mau se deu conta de que mãe e filho, aos poucos, se aproximavam dele para sentarem-se nos dois bancos que restavam em sua fileira.
Absorto em seus pensamentos, o menino cinza analisou cada centímetro do garoto que parecia estar extremamente doente. Ele não possuía cabelos e nem sequer pelos em suas sobrancelhas. Abaixo de seus olhos haviam fortes marcas amarelo-escuras, que denotavam a ele um ar sofrido e cansado. Seu peito funcionava agitadamente, como se os tubos ligados ao seu nariz não estivessem lhe ajudando em nada a respirar. E com o espanto que só um tapa de luvas da vida pode causar a alguém, notara que a pele do garoto tinha, verdadeiramente, o tom que regia o codinome que dava a si mesmo: Cinza.
De lágrimas aos olhos e surpreso pela emoção compulsiva, o menino cinza encontrou, desesperado, os olhos da mãe do garotinho doente, que aproveitando que o mesmo havia dado alguns passos para brincar com uma das enfermeiras, disse em tom baixo, porém extremamente carregado de pesar:
- Câncer... Pulmão... Metástase. - E caiu em pranto solto, como se explicasse e depois agonizasse pela doença de seu filho.
O menino cinza, sentindo uma dor que não era a dele, não viu outra forma melhor de consolar a pobre senhora do que dando a ela seu abraço; O primeiro abraço verdadeiro que dera em alguém.
A senhora, comovida com o penar de sua própria história e de seu filho; Cansada de sofrer sozinha e sem alento, abraçou de retorno o menino cinza, que a essa altura traía toda sua maneira neutra de viver a vida, e chorava também um choro meloso e carregado de pena.
O menino cinza sentiu em si a dor daquela mulher que pariu, criou, e agora, desafiada pelo contrário da ordem natural das coisas, via seu rebento morrer antes dela, consumido aos poucos por uma doença cruel com a qual pecado algum cometido por uma criança justificasse tal punição.
Atormentado por seus próprios fantasmas, o menino cinza urrava internamente o desespero da alma que vivera presa por tantos anos querendo viver além da gaiola que o medo a impunha.
E como se não bastassem tantas emoções e sinas que a vida já havia lhe dado, o menino cinza ainda precisou de mais; Sentiu uma mão pequena e fria o tocar de leve a face dizendo como num suspiro de passarinho azul próximo a partir de seu ninho:
- Não chora moço. Brinca comigo que eu te ensino a sorrir!
Era o garotinho doente que mostrava pra ele que o corpo é uma casca, que idade não importa, que o amor pode brotar mesmo naquele chão de pedras rachadas e gélidas.
O garotinho, que tinha cada vez mais próximo de si a morte, preservava a calma e a inocência que só uma alma pura e sem culpas pode ter.
Vivera apenas sete anos ou um pouco mais, e se mostrava agradecido a Deus e satisfeito pela oportunidade que lhe fora dada.
O menino cinza perdeu suas grades com extrema facilidade, e sentou-se de pernas cruzadas, e ainda em pranto solto na face, no chão daquele hospital.
Disse ao garotinho, embalado em tom pesaroso:
- Vou te ensinar a brincar de adedanha, e você, se quiser, pode me ensinar a brincar de inventar alegria em tudo que se vê.
O garotinho, com um sorriso acanhado e fraco, abraçou o menino cinza e deu-lhe um beijo na face, dizendo:
- É só fingir que a vida é um caderno de desenhos, que o dia é uma página nova, e que todo o resto é giz-de-cera. Assim você pinta seus desenhos, um por dia, cada vez mais coloridos.
Foi esse o conselho que o garotinho lhe dera.
O conselho mais maduro que alguém poderia lhe dar.
Mal sabia a criança que com aquelas palavras, soltava de vez a alma do menino cinza, que imediatamente deixara de ser cinza para ser branco e colorir-se com gizes-de-cera.
O momento que fora rápido, porém eterno, acabou-se quando o menino que era cinza percebeu sua mãe de pé, a um passo da porta do quarto de sua avó, olhando-o comovida, encantada com a cena que via.
Ela via ali o contrário de tudo que seu filho sempre foi.
Embalados naquela emoção, demoraram muito para perceber: Era o momento de se despedir.
O menino que era cinza abraçou o garotinho doente, forte o bastante para que pudesse se mostrar agradecido pelo retorno da vida que o mesmo havia lhe dado de graça, mas com cautela e zelo suficientes para que não ferisse ainda mais aquele corpo frágil de um anjo que estava morrendo.
Abraçou também a mãe da criança, que lhe olhou nos olhos e disse:
- Meu filho não tem mais vida pra viver, são poucos os instantes que o restam. Mas não deixe que a sua escorra pelos seus dedos.
De mãos dadas com sua mãe, o menino que era cinza dirigiu-se à porta do hospital.
Estava surdo e mudo de tanta emoção.
Ele via o mundo com cores agora.
Há quem diga que nenhum de nós parte dessa vida sem mudar a vida de outrem.
Aquele menino doente, que perdia a batalha contra um câncer que o corroia, mudara a vida de muitas pessoas com sua resignação e pureza.
Foi essa a herança que aquela criança deixava para o mundo.
Ainda de olhos vermelhos, o menino que era cinza teve forças e olhou para trás uma última vez. Ele viu que passos agitados populavam o corredor onde estava há instantes.
Não queria imaginar, mas sabia que o passarinho, que antes estava fraco, havia finalmente batido asas rumo ao céu azul.
O menino doente havia abraçado a morte do corpo, e se libertado para a vida do espírito.
De lágrimas brotando em comoção, abaixou-se em prece pelo menino doente que agora estava saudável nos braços do Pai.
As palavras faltavam, mas os sentimentos eram fortes o bastante para expressar seus pensamentos naquele instante.
Entrou no carro de sua mãe, que ainda estava comovida, e disse antes de qualquer coisa:
- Acho que podemos pintar as paredes do meu quarto, mãe.
Ela, extasiada de felicidade e gratidão, perguntou-lhe em meio a um soluço:
- De que cor meu filho?
E o menino que era cinza viu passar pela janela um lindo passarinho azul, de canto leve, como quem reza pra agradecer o dom da vida, voando livre em rumo à imensidão de nuvens do céu, desfrutando da liberdade enfim conquistada e despedindo-se da dor que trouxe a sabedoria.

- Acho que a cor do céu é uma linda cor. - Respondeu o menino que era cinza.

E daquele momento em diante, de todas as cores que trazia em si, o menino gostava mais do azul...
E esquecera, para sempre, da existência do cinza.



Matheus